Depois de sete décadas de perda contínua de biodiversidade, o rio Yangtzé começa a apresentar sinais de recuperação. Uma pesquisa publicada em fevereiro de 2026 na revista científica Science concluiu que a proibição da pesca comercial interrompeu o declínio dos recursos pesqueiros e produziu melhoras em diferentes indicadores do ecossistema.
Os pesquisadores identificaram aumento da biomassa dos peixes, melhora das condições físicas dos animais, maior diversidade de espécies e sinais iniciais de recuperação de populações ameaçadas. O resultado mostra que ecossistemas muito pressionados podem reagir quando recebem proteção efetiva e contínua.
O Yangtzé é o maior rio da China e um dos principais sistemas de água doce do mundo. Durante décadas, sua biodiversidade sofreu os efeitos combinados da pesca excessiva, da poluição, da construção de barragens, da navegação e das transformações das margens.
Em janeiro de 2020, o governo chinês proibiu a pesca em 332 áreas de conservação da bacia. No ano seguinte, a medida foi ampliada para o curso principal do rio e seus principais afluentes, com uma moratória prevista para durar dez anos.
O que mudou
Para avaliar os efeitos iniciais da política, cientistas do Instituto de Hidrobiologia da Academia Chinesa de Ciências e de outras instituições analisaram dados coletados entre 2018 e 2023.
O estudo acompanhou diferentes aspectos das comunidades de peixes, como número de espécies, abundância, biomassa, distribuição e equilíbrio entre as populações. Também considerou outras pressões sobre o ecossistema, entre elas qualidade da água, alterações no fluxo do rio, clima, ocupação do solo, navegação e desenvolvimento das margens.
Os resultados indicam que a retirada da pesca comercial foi o principal fator responsável pela mudança. Houve aumento especialmente expressivo da biomassa de espécies de maior porte, enquanto peixes grandes e pequenos passaram a apresentar melhores condições corporais.
Uma das espécies observadas foi o linguado-de-língua-delgada (Cynoglossus gracilis). Depois da proibição, sua população cresceu e os animais passaram a avançar por trechos mais distantes rio acima durante a migração.
Recuperação de espécies
A melhora do ecossistema aparece ainda em um de seus habitantes mais conhecidos: o boto-sem-barbatana-do-Yangtzé, mamífero aquático encontrado apenas nessa região.
Dados divulgados em janeiro de 2026 estimaram a população da espécie em 1.426 animais, 177 a mais do que no levantamento realizado em 2022. Por ser sensível às alterações na qualidade da água e à disponibilidade de alimento, o boto é considerado um indicador das condições ambientais do rio.
A recuperação, no entanto, não pode ser atribuída a uma única medida. Segundo os pesquisadores, a redução do tráfego de embarcações, a implantação de faixas de vegetação nas margens e a melhora da qualidade da água também contribuíram para os resultados.
O rio já está 100%?
Ainda não. Os cientistas falam em uma recuperação inicial, e não em uma restauração completa. Barragens, mudanças no fluxo da água, urbanização, poluição e perda de áreas naturais continuam ameaçando o ecossistema.
Há também espécies migratórias para as quais a proibição da pesca, isoladamente, pode não ser suficiente. Represas e outras barreiras físicas dificultam o deslocamento, a reprodução e o acesso dos peixes a diferentes áreas do rio.
Mesmo com essas limitações, o estudo oferece uma evidência importante: interromper diretamente uma das principais fontes de pressão permitiu que a biodiversidade começasse a reagir em poucos anos.
Proteção com efeitos sociais
A implantação da moratória também exigiu políticas para as comunidades que dependiam da pesca. Mais de 200 mil pescadores foram afetados pela proibição e precisaram deixar a atividade ou buscar outras fontes de renda.
Programas locais ofereceram capacitação profissional, apoio à criação de peixes e crustáceos, acesso a benefícios sociais e encaminhamento para novos empregos. Até o primeiro trimestre de 2025, 145 mil ex-pescadores considerados aptos e interessados em trabalhar haviam sido recolocados, segundo informações oficiais chinesas.
Essa dimensão é fundamental para o sucesso de projetos de conservação. Proteger um ecossistema sem oferecer alternativas às pessoas que dependem dele pode aumentar conflitos e dificultar o cumprimento das regras.
No Yangtzé, a combinação entre proibição de longo prazo, fiscalização, monitoramento científico e apoio às comunidades começa a mostrar que a recuperação da natureza é possível — desde que a proteção saia do papel e seja mantida durante tempo suficiente.

