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Conceição Evaristo recebe da Unicamp seu 5º título de doutora honoris causa

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Escritora que trabalhou como empregada doméstica e só se formou professora aos 25 anos já havia sido homenageada por UFPR, UFES, UFMG e UFRJ

A escritora mineira Conceição Evaristo, 79 anos, recebeu no dia 6 de agosto o título de doutora honoris causa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a primeira mulher negra a receber essa honraria da instituição em mais de cinco décadas de história. O reconhecimento é o quinto que Evaristo recebe de uma universidade pública brasileira, depois de títulos concedidos pela UFPR em 2023, pela Ufes em abril de 2025, pela UFMG em setembro do mesmo ano e pela UFRJ, aprovado em junho de 2026.

Durante a cerimônia em Campinas, Evaristo disse que a honraria funciona como reconhecimento às mulheres negras de um modo mais amplo, não apenas a ela própria. Também aproveitou a visita para discutir, com o Arquivo Edgar Leuenroth da Unicamp, a digitalização e organização do próprio acervo pessoal, hoje reunido pela Casa Escrevivência.

Casa sem livros, mas cheia de histórias

Evaristo nasceu em novembro de 1946 na favela de Pindura Saia, na zona sul de Belo Horizonte, uma das nove filhas de uma família que vivia do trabalho doméstico: a mãe e a tia eram lavadeiras, e ela própria começou a trabalhar como empregada doméstica aos 8 anos, ajudando também a cuidar de crianças vizinhas para complementar a renda de casa.

Não havia dinheiro para livros, mas a casa era, segundo a própria escritora descreve, “habitada por palavras” — histórias contadas pela mãe, pela tia e pelos vizinhos, num ambiente de oralidade que ela reconhece como a origem de sua formação literária. Aos 11 anos, passou a frequentar a biblioteca pública municipal, que se tornou refúgio recorrente.

Professora aos 25, doutora décadas depois

Evaristo cursou o primário em escolas públicas de Belo Horizonte e fez o ginasial com interrupções, enquanto seguia trabalhando como doméstica. Formou-se no Curso Normal — equivalente ao ensino médio de hoje, com habilitação para lecionar — em 1971, aos 25 anos, pelo Instituto de Educação de Minas Gerais. Dois anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro para assumir uma vaga na rede pública de ensino.

A trajetória acadêmica veio mais tarde: graduação em Letras pela UFRJ, mestrado em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, concluído em 1996, e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, em 2011, com pesquisa sobre as relações entre a produção literária afro-brasileira e a de países africanos de língua portuguesa. Aposentou-se da sala de aula no início dos anos 1990, mas seguiu como professora visitante em instituições no Brasil e no exterior.

De “Cadernos Negros” à escrevivência

Evaristo estreou na literatura em 1990, na coletânea “Cadernos Negros”, e consolidou o conceito de “escrevivência” — a escrita que nasce da experiência coletiva de mulheres negras — como uma das chaves de leitura mais influentes da literatura brasileira contemporânea. Romances como “Ponciá Vicêncio” (2003) e “Becos da Memória” (2006), além da coletânea de contos e poemas “Olhos d’Água” (2014), já foram traduzidos para inglês, francês e italiano.

Em 2024, tomou posse na Academia Mineira de Letras, ocupando a cadeira 40. O reconhecimento de universidades públicas de diferentes regiões do país — Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro e agora São Paulo — acompanha essa trajetória, ao mesmo tempo em que amplia a representatividade de mulheres negras em espaços historicamente ocupados quase exclusivamente por homens brancos.

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