Cantor mantém quase 80 hectares de Mata Atlântica protegidos em Saquarema, onde uma preguiça reabilitada acaba de ser solta
Uma preguiça-de-três-dedos abriu a caixa de transporte, alcançou uma árvore e começou uma nova vida em liberdade na última semana. A cena foi acompanhada de perto por Ney Matogrosso e Marisa Monte, no sítio que o cantor mantém em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.
Resgatado e reabilitado pelo Instituto Vida Livre, o animal foi levado até lá para ser devolvido à natureza. A soltura chamou atenção nas redes sociais, mas faz parte de uma história bem maior: há décadas, Ney transforma parte da propriedade em um refúgio para a Mata Atlântica e para a fauna silvestre.
Hoje, quase 80 dos cerca de 140 hectares da propriedade são protegidos por duas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
Documentos do Inea — Instituto Estadual do Ambiente registram em Saquarema a RPPN Mato Grosso, com 26,11 hectares, e a RPPN Reserva Mato Grosso II, com 53,51 hectares. Juntas, somam 79,62 hectares — cerca de 57% da área total do sítio.
Reserva garantida
Uma RPPN é uma unidade de conservação criada por iniciativa do proprietário de uma área privada. Uma vez reconhecida, a proteção tem caráter permanente: o terreno continua particular, mas aquela parcela fica destinada à conservação da biodiversidade.
Ou seja, Ney Matogrosso não simplesmente manteve uma área verde dentro de seu sítio. Ao transformá-la em RPPN, garantiu que a vegetação protegida continue com essa finalidade no futuro.
A preocupação é antiga. A RPPN Mato Grosso já aparece em registros federais do início dos anos 2000. Anos depois, a criação da Mato Grosso II ampliou consideravelmente a extensão protegida.
O cantor chegou a dizer que gostaria de transformar os 140 hectares da propriedade em RPPN.
Da proteção à liberdade
A preservação da floresta permitiu que o espaço ganhasse outra função.
Em 2015, o sítio se tornou a primeira Área de Soltura de Animais Silvestres (Asas) usada pelo Instituto Vida Livre, organização criada para resgatar, tratar, reabilitar e devolver animais à natureza. O primeiro deles foi um gavião-caboclo.
Desde então, as solturas se multiplicaram.
Em entrevista publicada em julho pelo jornal argentino La Nación, Ney Matogrosso afirmou que mais de 10 mil animais silvestres já foram devolvidos à natureza na propriedade.
“Já liberamos ali mais de 10 mil animais”, contou o cantor. Entre os exemplos citados por ele estão catetos, cachorros-do-mato e jiboias, algumas com quase 3 metros de comprimento.
O total é informado pelo próprio Ney e não há, até o momento, um balanço público detalhado com a quantidade de animais por espécie e por ano.
Moradora reabilitada
A preguiça solta agora é uma dessas histórias.
O animal havia sido resgatado e passou por tratamento e reabilitação antes de ser considerado apto a voltar à mata. Em um vídeo divulgado pelo Instituto Vida Livre, Ney e Marisa Monte aparecem abrindo a caixa de transporte e observando a preguiça sair e subir lentamente em uma árvore.
“Amar é libertar”, escreveram na publicação.
Ney é patrono do Instituto Vida Livre desde o início da organização e já participou de outras iniciativas para apoiar seu trabalho. Marisa Monte também colabora com o instituto, inclusive em apresentações beneficentes para levantar recursos destinados à proteção da fauna.
A propriedade de Saquarema acabou, assim, ganhando uma função que vai muito além de servir como refúgio particular do artista: parte da terra está legalmente protegida, a floresta fornece habitat para a fauna e o local ajuda animais que foram retirados da natureza a voltar para casa.

