Em uma região de Mata Atlântica no interior de São Paulo, uma das jiboias mais raras – e tímidas – do mundo pode estar no alto de uma árvore — e passar despercebida até por quem vive a poucos metros dela. Foi assim durante décadas com a jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii), espécie encontrada apenas no Vale do Ribeira e tão pouco conhecida que, entre 1953 e 2016, havia somente sete registros. Todos os animais localizados nesse período estavam mortos.
A história começou a mudar quando os pesquisadores decidiram que procurar a cobra não bastava: era preciso ensinar quem vivia na região a reconhecê-la.
O Projeto Jiboia do Ribeira passou a trabalhar com moradores da comunidade do Guapiruvu, na zona rural de Sete Barras (SP), explicando quais serpentes vivem ali, quais oferecem risco e por que aquela jiboia em particular precisava ser mantida viva. A aproximação tinha uma razão prática: ninguém conhece uma região tão bem quanto quem circula por ela todos os dias.
E funcionou. Hoje, graças à colaboração dos moradores e ao trabalho de educação ambiental, 20 jiboias-do-ribeira já foram identificadas vivas. A participação da comunidade também permitiu aos cientistas começar a descobrir como vive uma espécie sobre a qual, até pouco tempo atrás, quase nada se sabia.
64 anos esperando por uma viva
Descrita em 1953 pelo herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan, a Corallus cropanii é endêmica da Mata Atlântica do Vale do Ribeira. É uma serpente não peçonhenta, da mesma família das jiboias e sucuris.
Mas sua aparência não ajudou na sobrevivência. A espécie pode ser confundida pelos moradores com a jararacuçu, que é peçonhenta. Por medo ou falta de informação, cobras encontradas na região acabavam mortas antes que alguém pudesse confirmar de que espécie se tratava.
Em 2016, o projeto começou um trabalho sistemático de educação ambiental em Guapiruvu. Poucos meses depois veio o resultado.
Um morador encontrou uma cobra e, em vez de matá-la, avisou os pesquisadores. Era uma jiboia-do-ribeira viva — a primeira que a ciência conseguia estudar nessas condições em 64 anos. O animal ganhou o nome de Dona Crô, escolhido por uma criança da comunidade.
A mudança de atitude era exatamente o que os pesquisadores buscavam. Em vez de apenas tentar localizar pessoalmente um animal extremamente difícil de encontrar, eles haviam transformado dezenas de moradores em olhos adicionais espalhados pela mata.
É o princípio da chamada ciência cidadã: pessoas que não são cientistas profissionais participam da produção de conhecimento, ajudando a observar, registrar, coletar informações ou monitorar fenômenos e espécies.
De Dona Crô a Esperança
Vieram outros encontros. Em outubro de 2020, moradores localizaram outra fêmea adulta. Ela foi batizada de Esperança e passou seis meses sob cuidados no Parque Estadual Intervales, período em que pesquisadores puderam fazer exames e coletar dados antes de devolvê-la à natureza.
Depois da soltura, a comunidade também participou do monitoramento. Moradores chegaram a acompanhar a cobra com rádio e antena, seguindo o sinal emitido pelo equipamento instalado no animal para que os pesquisadores pudessem descobrir por onde ela circulava.
Esse acompanhamento começou a revelar uma jiboia que havia permanecido praticamente misteriosa por décadas.
Os animais monitorados indicaram que ela tem hábitos arborícolas e passa boa parte do tempo entre as copas das árvores. Alimenta-se de pequenos mamíferos, como roedores, e parece responder fortemente às estações: no inverno, procura galhos com maior incidência de sol; no verão, tende a descer.
São informações aparentemente simples. Para uma espécie tão pouco observada, porém, até saber onde ela prefere ficar é importante para decidir o que precisa ser protegido.
De cobra temida a símbolo da região
Talvez a transformação mais interessante tenha acontecido fora dos laboratórios.
A própria expressão “jiboia-do-ribeira” foi criada durante o projeto. O objetivo era dar à espécie um nome que ajudasse os moradores a associá-la às jiboias — serpentes não peçonhentas — e, ao mesmo tempo, reforçasse sua ligação com o Vale do Ribeira.
Hoje, uma das metas do projeto é justamente transformá-la em símbolo da região, usando a raridade do animal para chamar atenção também para a conservação de seu habitat.
Isso importa porque proteger a jiboia significa proteger muito mais do que uma cobra. Seu habitat está dentro do Vale do Ribeira, região que concentra o maior contínuo de Mata Atlântica preservada do país.
A espécie continua ameaçada. Os próprios registros feitos pelo projeto incluem animais mortos, sobretudo por atropelamento, e pesquisadores ainda sabem muito pouco sobre o tamanho de sua população.
Faça a diferença
Se você encontrar uma cobra, não tente capturá-la nem matá-la. Afaste-se, mantenha crianças e animais domésticos longe e, se ela estiver em uma área de circulação ou oferecer risco, procure o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil ou o órgão ambiental da sua região. Fotografar o animal à distância e sem se aproximar para conseguir uma imagem melhor também pode ajudar na identificação.
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