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Designer yanomami conquista a Europa com móveis que unem técnicas japonesas e quilombolas

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Uma técnica japonesa de marcenaria que dispensa pregos, parafusos e cola. O conhecimento ancestral de artesãs quilombolas que transformam uma planta da Caatinga em fibras e tramas. E as referências de um designer yanomami que cresceu no Nordeste e hoje vive na Bélgica.

Esses universos se encontram no trabalho de Breno Caetano, de 38 anos, criador do UTA Studio, que apresentou em 2026 na PAD Paris uma série de três cadeiras produzidas com madeira e fibra de caroá trabalhada no Quilombo São João do Jatobazinho, em Dom Inocêncio, no Piauí.

Realizada de 8 a 12 de abril, a PAD Paris reúne galerias e trabalhos de design histórico e contemporâneo. Breno é representado em Paris pela Galerie Aurélien Jeauneau, que inclui suas criações em seu acervo de mobiliário contemporâneo.

Do Amazonas ao Japão

Yanomami, Breno nasceu na região amazônica e mudou-se para Fortaleza aos 6 anos. Viveu na capital cearense até o início da vida adulta, quando foi para a Europa estudar dança.

Na França, passou pelo Centre National des Arts du Cirque (CNAC) e trabalhou com nomes como o coreógrafo israelense Ohad Naharin e o francês Philippe Decouflé.

Uma residência artística no Japão, em 2016, acabaria mudando sua trajetória. Breno começou a frequentar disciplinas de artes visuais e conheceu o Sashimono, técnica tradicional de marcenaria japonesa baseada em encaixes precisos de madeira, sem o uso de pregos, parafusos ou cola.

O interesse pelo trabalho manual cresceu e, em 2019, nasceu o UTA Studio. Instalado em Bruxelas, Breno começou criando pequenos objetos e passou depois ao mobiliário e a peças de caráter escultórico.

A experiência com a dança permaneceu no modo de pensar as formas. “Minha ideia de design parte da imagem. Vejo meus objetos como peças que dançam, como eu dançava”, explica.

O encontro com o caroá

O caminho até o Piauí passou pelo escritor e pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, que apresentou Breno ao Quilombo Jatobazinho e ao trabalho tradicional desenvolvido ali com o caroá.

Nativa da Caatinga, a planta fornece uma fibra resistente que a comunidade transforma artesanalmente em fios e tramas. Em Jatobazinho, o conhecimento é historicamente empregado na produção de redes e transmitido entre gerações.

Breno deixou Bruxelas e foi ao quilombo conhecer de perto tanto a extração do caroá quanto o preparo da fibra e a confecção das tramas. O encontro resultou na série Caroá, composta por três cadeiras que combinam estruturas de madeira às fibras trabalhadas pelas artesãs.

Um estudo publicado pela revista Contemporânea, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), aborda a produção de redes de caroá em Jatobazinho como uma tecnologia ancestral ligada à memória e à identidade quilombolas.

“Enquanto yanomami e nordestino, tento transformar técnicas de forma respeitosa, encontrando a minha estética dentro desses saberes ancestrais”, afirma Breno.

Brasil e Japão aparecem em outras peças

O cruzamento de referências não se limita às cadeiras de caroá.

Na série Urushicum, Breno aproxima Brasil e Japão já no nome: une urucum, corante natural amplamente utilizado por povos indígenas brasileiros, a urushi, técnica japonesa que emprega a seiva da árvore-da-laca para revestir e proteger objetos.

As peças têm formas pontiagudas inspiradas nos espinhos dos cactos e mostram como referências naturais e culturais aparecem no trabalho sem necessariamente serem reproduzidas de maneira literal.

Outra criação, o Lençóis Cabinet, leva a paisagem nordestina para o mobiliário. O armário tem a superfície esculpida para lembrar os desenhos formados pela areia dos Lençóis Maranhenses.

É uma característica recorrente do trabalho de Breno: referências brasileiras, indígenas e nordestinas convivem com técnicas aprendidas no Japão e com uma linguagem contemporânea desenvolvida na Europa.

As peças do UTA Studio são produzidas principalmente em madeiras maciças, como carvalho e faia. Além das encomendas feitas diretamente ao designer, o trabalho pode ser encontrado em Bruxelas e na Galerie Aurélien Jeauneau, em Paris.

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