Circula pelas redes sociais um vídeo em que um garimpeiro filma máquinas destruídas durante uma operação de fiscalização. Enquanto mostra o maquinário inutilizado, reclama do prejuízo e encerra com um “faz o L”, como se a ação dos agentes públicos representasse um ataque a uma atividade regular.
Não representa. A extração de recursos minerais sem autorização, permissão, concessão ou licença é crime ambiental previsto na legislação brasileira. Como os recursos minerais pertencem à União, explorá-los sem autorização também pode configurar crime de usurpação do patrimônio público. (Lei nº 8.176/1991).
Na Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, o espaço ocupado pelo garimpo ativo caiu de 4.570,56 hectares, em março de 2024, para 56,13 hectares no fim de 2025. A redução foi de 98,77%, segundo monitoramento do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) divulgado em janeiro de 2026.
É uma mudança de escala. Em agosto de 2024, poucos meses depois do início da operação coordenada a partir de Roraima, ainda havia 1.159 hectares de garimpo ativo. Em fevereiro de 2025, eram 269 hectares. Ao final daquele ano, restavam pouco mais de 56.
Desmonte de estrutura
Para chegar a esse resultado, as operações passaram a desmontar não apenas os pontos de extração de minério, mas a estrutura que permite manter um garimpo em funcionamento no meio da floresta.
Desde março de 2024, quando foi instalada em Boa Vista a Casa de Governo responsável pela coordenação das ações na Terra Indígena Yanomami, foram realizadas milhares de operações envolvendo órgãos ambientais, indigenistas e forças de segurança.
Pistas clandestinas, aeronaves, embarcações, acampamentos, motores, escavadeiras, combustíveis e equipamentos passaram a ser apreendidos ou inutilizados. Ao completar 9 mil operações, no fim de 2025, a força-tarefa associava a queda do garimpo ao enfraquecimento de sua logística e de sua capacidade de voltar rapidamente aos pontos de exploração.
A redução ocorreu de forma progressiva. Em junho de 2025, a área de garimpo ativo já havia caído 96% em relação a março do ano anterior. Dois meses depois, as ações acumulavam mais de 6,4 mil operações e redução próxima de 98%.
Por que destruir máquinas?
É justamente essa parte da fiscalização que aparece no vídeo que circula nas redes.
Uma escavadeira usada em um garimpo remoto não pode necessariamente ser colocada sobre um caminhão e levada a um depósito. Em determinadas operações, transportar ou manter sob guarda equipamentos de grande porte pode ser inviável, além de permitir que voltem a ser utilizados assim que os fiscais deixam a área.
A legislação prevê essa situação. O Decreto nº 6.514/2008, que regulamenta infrações e sanções administrativas ambientais, permite a destruição ou inutilização de instrumentos utilizados na prática de infrações em circunstâncias previstas pela fiscalização.
As normas do Ibama detalham o procedimento: a medida deve ser formalizada, justificada em relatório e acompanhada de registro fotográfico. Podem ser inutilizados instrumentos, equipamentos e veículos usados na infração.
Em uma operação contra garimpo ilegal no Pará, por exemplo, o próprio Ibama informou que destruiu equipamentos porque o transporte e a guarda eram inviáveis e sua permanência no local permitiria novo uso na atividade ilegal.
Ou seja: o maquinário destruído não é tratado pela fiscalização simplesmente como patrimônio privado, mas como instrumento de uma infração ambiental que pode voltar a operar.
Pressão sobre o território
A Terra Indígena Yanomami é a maior do Brasil e ocupa uma extensa área de floresta entre Roraima e Amazonas. A expansão do garimpo ilegal provocou abertura de clareiras, alteração de cursos d’água e instalação de uma rede clandestina de pistas, acampamentos e abastecimento dentro e no entorno do território.
Reduzir a área de garimpo ativo significa diminuir essa pressão direta e criar condições para que áreas degradadas comecem a se recuperar.
O efeito também vai além da floresta. A mineração ilegal interfere na disponibilidade e qualidade da água, na pesca, na alimentação e na circulação das comunidades indígenas, além de levar para o território pessoas, armas, combustíveis e outras estruturas ligadas à atividade clandestina.
Por isso, a proteção do território não termina quando uma área deixa de aparecer no mapa como garimpo ativo. A fiscalização precisa continuar para impedir a reocupação e acompanhar possíveis deslocamentos das redes ilegais para outros pontos.
Esse movimento já foi identificado em outras terras indígenas. Em março de 2026, uma operação na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, também em Roraima, encontrou garimpeiros que haviam migrado de outras regiões submetidas a maior fiscalização. Em junho, novas ações atingiram estruturas de garimpo na Terra Indígena Kayapó, no Pará.
A experiência Yanomami, porém, mostra que essa fiscalização pode mudar de forma radical a ocupação de um território. Em menos de dois anos, uma área de garimpo ativo equivalente a aproximadamente 6,4 mil campos de futebol foi reduzida a algo próximo de 79 campos.
De 4.570 para 56 hectares.
O número deixa pouca dúvida sobre o que acontece quando uma atividade ilegal perde máquinas, pistas, combustível, rotas de abastecimento e espaço para operar.
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