Passear por um parque, visitar um museu, assistir a um filme ou entrar em uma cachoeira ainda pode exigir planejamento extra — ou ser simplesmente inviável — para muita gente. Mas iniciativas espalhadas pelo Brasil começam a mostrar que acessibilidade pode ir muito além de rampas e elevadores.
O movimento ganha força neste mês com a 20ª Primavera dos Museus, realizada de 21 a 27 de setembro em todo o país. Neste ano, a iniciativa do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) tem como tema “Museus para todas as pessoas” e reúne ações voltadas à acessibilidade, inclusão e participação de diferentes públicos.
Há mapas que permitem conhecer uma paisagem com as mãos, sessões de planetário com menos estímulos para pessoas autistas, cinema com audiodescrição, exposições em Libras e até cadeira anfíbia para aproveitar uma cachoeira.
O Mistura Boa selecionou sete programas e espaços que apostam em diferentes formas de tornar cultura, natureza e lazer mais acessíveis.
1. Mapas táteis para explorar praia, jardins e até uma obra de Tomie Ohtake — Santos (SP)

O Novo Quebra-Mar, no Parque Roberto Mário Santini, em Santos, ganhou 14 mapas táteis que ajudam principalmente pessoas cegas ou com baixa visão a conhecer e se localizar pelo espaço.
As representações em relevo reproduzem jardins, areia, mar, edifícios e equipamentos esportivos. Há até uma versão tridimensional da escultura de Tomie Ohtake, instalada no parque.
Os equipamentos têm escrita em braile e QR Codes que levam a conteúdos com audiodescrição e interpretação em Libras. As bases também foram projetadas para permitir a aproximação de pessoas em cadeiras de rodas.
A instalação, concluída em setembro, faz parte de um projeto-piloto da Prefeitura de Santos. (Prefeitura de Santos)
Veja informações sobre os mapas táteis no site da Prefeitura de Santos
2. Planetário com menos estímulos para pessoas autistas — Rio de Janeiro (RJ)

No dia 26 de setembro, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), no Rio de Janeiro, terá uma programação especial para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Na ação Lugar de Autista é no MAST, o museu abre uma hora mais cedo exclusivamente para pessoas autistas e acompanhantes. Mapas sensoriais serão distribuídos aos visitantes.
Às 14h, uma sessão exclusiva de planetário apresenta estrelas, constelações, planetas, Lua e Sol com uma mediação adaptada para evitar transições bruscas e excesso de estímulos sensoriais. As mudanças durante a sessão também são comunicadas previamente ao público.
A atividade tem capacidade para oito pessoas com TEA e oito acompanhantes e exige inscrição antecipada.
Confira a programação e o formulário de inscrição no MAST
3. Cinema com audiodescrição e Libras — Curitiba (PR)
Durante todo o mês de setembro, a Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, realiza o Cine Inclusivo, com sessões voltadas a pessoas com deficiência visual e auditiva.
Os filmes contam com recursos como audiodescrição e janela de Libras. Entre os títulos disponíveis está o documentário Surdocegueira – O sentido do mundo pelo tato.
As exibições acontecem na Seção Braille da biblioteca, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h, até 30 de setembro, mediante agendamento.
Veja a programação do Cine Inclusivo
4. Trilha, jardim sensorial e cachoeira com cadeira anfíbia — Itatiaia (RJ/MG)

O contato com a natureza também pode ser mais acessível. No Parque Nacional do Itatiaia, entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, há jardim sensorial, trilhas acessíveis e uma cachoeira preparada para receber pessoas com mobilidade reduzida.
O parque dispõe de cadeira anfíbia, que permite o acesso à água, além de percurso acessível entre o Centro de Visitantes e a área de alimentação. Para pessoas com deficiência visual, há ainda bosque sensorial com placas em braile.
No dia 26 de setembro, o parque realiza ainda a 2ª edição da Corrida Caminhos Acessíveis, voltada a pessoas com deficiência e aberta à participação do público em geral. A iniciativa integra o projeto Natureza Sem Barreiras: Itatiaia Acessível, vencedor do Prêmio Nacional do Turismo de 2025 na categoria Equidade, Diversidade e Inclusão no Turismo.
Conheça as experiências acessíveis disponíveis nas unidades de conservação
5. Arte feita a partir da experiência de pessoas surdas — Fortaleza (CE)
No Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE), no Centro Dragão do Mar, a acessibilidade não aparece apenas como recurso para o visitante: ela está no centro da própria produção artística.
A Mostra Arte Surda, em cartaz até 4 de outubro, reúne pintura, fotografia, desenho, videoarte, arte digital e instalações produzidas por artistas surdos de diferentes lugares.
São 85 obras de artistas brasileiros e estrangeiros, apresentadas sob a perspectiva das experiências e identidades da comunidade surda. A Libras faz parte da exposição como língua de comunicação, mediação e expressão cultural.
A programação inclui ainda ações específicas. Em 19 de setembro, haverá oficina para crianças surdas e CODAs — filhos ouvintes de pais surdos. No dia 26, a visita Sábados em Libras no Museu será conduzida em Língua Brasileira de Sinais.
Veja informações sobre a Mostra Arte Surda
6. Pessoas cegas ajudam a criar mural artístico pelo toque — Salvador (BA)
Na CAIXA Cultural Salvador, uma oficina transforma o tato na principal ferramenta de criação.
O Mural Tátil Inclusivo será realizado nos dias 22 e 24 de setembro e é destinado a pessoas cegas ou com baixa visão. Os participantes vão trabalhar com formas e texturas para produzir coletivamente uma obra em baixo-relevo.
Idealizada pelo artista plástico baiano Gustavo Maciel, a atividade resultará em um mural artístico permanente.
A programação de setembro inclui ainda, no dia 26, uma oficina de Libras voltada a educadores e outras pessoas interessadas em melhorar a comunicação e o acolhimento em espaços culturais.
As atividades são gratuitas, com inscrição pela CAIXA Cultural.
Confira a programação da CAIXA Cultural Salvador
7. Museu combina Libras e audiodescrição em visita guiada — Sorocaba (SP)
O Museu Histórico Sorocabano promove no dia 22 de setembro, das 14h às 15h, uma visita mediada à exposição de longa duração com recursos de acessibilidade.
A atividade terá intérprete de Libras e audiodescrição, permitindo que pessoas com deficiência auditiva ou visual acompanhem o percurso e os conteúdos apresentados pelo museu.
A visita é gratuita, presencial e faz parte da programação da 20ª Primavera dos Museus. O Museu Histórico Sorocabano fica junto ao Zoológico Municipal Quinzinho de Barros.
Veja os detalhes da visita acessível em Sorocaba
Acessibilidade é assim
As iniciativas mostram que tornar um passeio acessível não significa apenas permitir a entrada de diferentes públicos.
Um mapa tátil pode dar autonomia para explorar um parque. Diminuir estímulos pode transformar a ida ao planetário. Audiodescrição, Libras, recursos sensoriais e equipamentos adaptados permitem que mais pessoas participem da experiência — em vez de apenas estar presentes nela.
E, como mostra a exposição de Fortaleza, acessibilidade também significa abrir espaço para que pessoas com deficiência sejam autoras, artistas e protagonistas da cultura.
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