Uma plataforma brasileira que usa tecnologia para aproximar quem tem alimento sobrando de quem precisa acaba de ganhar reconhecimento internacional. O Instituto Fome de Tudo, fundado por Úrsula Corona, venceu em Nova Déli, na Índia, uma premiação da Aliança Empresarial Feminina do BRICS (BRICS Women’s Business Alliance), na categoria de Agricultura e Segurança Alimentar.
Criada em 2020, a iniciativa combate ao mesmo tempo dois problemas que convivem lado a lado: o desperdício de alimentos e a insegurança alimentar.
A lógica é simples. Produtores, empresas e supermercados cadastram excedentes que ainda estão próprios para consumo. Instituições sociais, por sua vez, consultam as ofertas e recebem os alimentos. Uma plataforma digital organiza todo o processo e permite controlar e rastrear as doações.
9 milhões de refeições distribuídas
Segundo o próprio instituto, o modelo já ajudou cerca de 300 mil pessoas e contribuiu para a distribuição do equivalente a 9 milhões de refeições.
Hoje, a operação movimenta aproximadamente 500 toneladas de alimentos por mês e reúne cerca de 4.500 parceiros. Ao impedir o descarte de alimentos próprios para consumo, a organização estima que já evitou a emissão de 15 mil toneladas de CO₂.
O impacto ambiental é parte importante da proposta. Quando alimentos vão parar em aterros, além de desperdiçar toda a água, energia, solo e transporte usados para produzi-los, sua decomposição também gera gases de efeito estufa.
Ao redirecionar esses produtos antes do descarte, o Fome de Tudo transforma desperdício em alimento e reduz parte dessa pegada ambiental.

Um “Tinder da fome”
A própria organização já descreveu a ferramenta como uma espécie de “Tinder da fome”: de um lado, supermercados e produtores registram alimentos excedentes; do outro, organizações cadastradas encontram o que está disponível.
A diferença é que o “match” não termina na conexão. A tecnologia acompanha também a logística e a rastreabilidade do processo, registrando o destino dos produtos e os benefícios gerados.
A proposta coloca a tecnologia a serviço de um problema que não é exatamente falta de comida, mas também de distribuição e aproveitamento.
Parceria com programa da ONU
O Fome de Tudo também mantém parceria com o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP), por meio do Centro de Excelência contra a Fome no Brasil.
Entre as iniciativas desenvolvidas em conjunto está uma campanha voltada à alimentação escolar na América Latina e no Caribe, além de ações contra a insegurança alimentar durante períodos de férias escolares.
O prêmio recebido na Índia foi concedido pela BRICS Women’s Business Alliance, fórum criado para estimular a participação econômica e o empreendedorismo de mulheres nos países do bloco. Em 2026, a presidência da aliança passou do Brasil para a Índia.
Tecnologia com impacto social
O modelo do Fome de Tudo mostra como uma ferramenta relativamente simples pode ajudar a resolver um problema de logística com enorme impacto social.
Em vez de criar uma nova cadeia de produção, a plataforma trabalha com aquilo que já existe — e que correria o risco de ser perdido.
É justamente essa combinação de tecnologia, redução do desperdício e combate à fome que levou o projeto brasileiro ao reconhecimento internacional.

