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Vacina contra câncer de pele agressivo tem sucesso em teste final

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Desenvolvido por Moderna e MSD, tratamento feito sob medida para cada paciente conseguiu reduzir recorrências e metástases do câncer de pele

Uma vacina experimental contra o melanoma – tipo de câncer de pele agressivo – conseguiu resultados expressivos. Feita sob medida para cada paciente, ela reduzir o risco de o melanoma voltar ou se espalhar para outras partes do corpo. Os resultados são de um estudo clínico de fase 3, a última etapa antes de um medicamento poder ser submetido à aprovação das agências reguladoras.

O resultado anunciado nesta quarta-feira (19) por Moderna e MSD — conhecida como Merck nos Estados Unidos e no Canadá — é considerado um marco para as vacinas contra o câncer: trata-se do primeiro resultado positivo em fase 3 de uma terapia oncológica personalizada baseada em RNA mensageiro (mRNA).

Batizado de intismeran autogene, o tratamento não é uma vacina preventiva, como as aplicadas contra doenças infecciosas. Ele é administrado depois da retirada cirúrgica do tumor e produzido individualmente, a partir das características genéticas do câncer de cada paciente.

No estudo, a vacina foi combinada ao Keytruda (pembrolizumabe), imunoterápico já utilizado no tratamento do melanoma. A combinação apresentou resultados superiores aos do Keytruda sozinho tanto na prevenção da recorrência quanto na redução do risco de metástases à distância.

Uma vacina para cada tumor

O intismeran usa uma amostra do tumor retirado do próprio paciente. A partir dela, os pesquisadores identificam mutações específicas das células cancerígenas e selecionam até 34 neoantígenos — proteínas anormais produzidas por essas mutações.

Essas informações são transformadas em uma molécula sintética de RNA mensageiro. Quando a vacina é administrada, ela funciona como uma espécie de instrução para que o sistema imunológico aprenda a reconhecer aquelas características e ataque células que carreguem as mesmas mutações caso elas permaneçam no organismo ou reapareçam.

É a mesma plataforma tecnológica de RNA mensageiro que ganhou projeção mundial com as vacinas contra a Covid-19, mas empregada de uma maneira diferente: em vez de prevenir uma infecção, o objetivo é estimular uma resposta imunológica direcionada contra o câncer.

O Keytruda atua por outro caminho. O medicamento bloqueia uma proteína chamada PD-1, utilizada pelas células tumorais para escapar das defesas do organismo. A ideia da combinação é, portanto, ensinar o sistema imune o que atacar e, ao mesmo tempo, retirar parte dos obstáculos que impedem esse ataque.

Mais de mil pacientes

O estudo de fase 3, chamado INTerpath-001, reuniu 1.137 pacientes com melanoma cutâneo nos estágios IIB, IIC, III ou IV. Todos haviam passado por cirurgia para retirar completamente o tumor e apresentavam risco elevado de a doença retornar.

Os participantes foram divididos em dois grupos: dois terços receberam intismeran combinado ao Keytruda, enquanto os demais receberam Keytruda e placebo.

Na análise preliminar prevista no protocolo, a combinação apresentou melhora estatisticamente significativa e clinicamente relevante na sobrevida livre de recorrência e na sobrevida livre de metástases à distância em comparação com o imunoterápico isolado. Não foram identificados novos sinais de segurança.

As empresas, no entanto, ainda não divulgaram os números detalhados dessa fase 3. Eles serão apresentados em um congresso médico internacional. O estudo continuará para avaliar outros indicadores, entre eles a sobrevida global — ou seja, se o tratamento também aumenta o tempo de vida dos pacientes.

Resultados já duravam cinco anos

Os novos achados reforçam dados de uma etapa anterior da pesquisa.

No estudo de fase 2b, que acompanhou 157 pacientes com melanoma de alto risco, a combinação de intismeran e Keytruda apresentou, após cinco anos, redução de 49% no risco de recorrência ou morte em comparação com o Keytruda isolado.

O risco de metástase à distância ou morte caiu 59%. Os resultados foram apresentados em junho deste ano durante o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO).

É importante não transferir automaticamente esses percentuais para o estudo de fase 3: embora o novo ensaio tenha confirmado o benefício da combinação em uma população muito maior, os dados numéricos desta etapa ainda não foram revelados.

Próximo passo é a aprovação

Moderna e MSD afirmaram que pretendem apresentar os resultados completos à comunidade científica e discutir com autoridades regulatórias os pedidos de aprovação do tratamento.

Se autorizado, o intismeran poderá abrir uma nova frente na chamada medicina personalizada contra o câncer, na qual o tratamento é elaborado com base nas características moleculares do tumor de cada pessoa.

A estratégia já está sendo testada além do melanoma. Moderna e MSD mantêm nove estudos de fase 2 ou 3 com o intismeran em diferentes tipos e estágios de câncer, incluindo tumores de pulmão, bexiga e rim.

O avanço é especialmente relevante porque o melanoma é considerado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) o tipo mais agressivo de câncer de pele, devido à maior possibilidade de disseminação para outros tecidos e órgãos. Quando descoberto precocemente, porém, o prognóstico costuma ser melhor.

Por enquanto, o intismeran continua sendo um tratamento experimental. Mas o sucesso na etapa mais avançada dos testes clínicos transforma uma ideia perseguida há décadas — ensinar o sistema imunológico a reconhecer o câncer de cada paciente por meio de uma vacina personalizada — em uma possibilidade cada vez mais próxima da prática médica.

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