Dois centros de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, inauguram programa internacional que estabelece padrões de qualidade para a recuperação de pacientes
Dois serviços públicos de saúde de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tornaram-se os primeiros do mundo certificados pela World Stroke Organization (WSO) em reabilitação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC).
O reconhecimento foi concedido ao Centro Integrado de Reabilitação do Hospital Estadual de Ribeirão Preto e ao Centro Estadual de Reabilitação da Rede Lucy Montoro de Ribeirão Preto, ambos integrantes do Sistema Único de Saúde (SUS). As unidades inauguram um novo programa internacional da WSO voltado especificamente à etapa de recuperação após um AVC.
A certificação estabelece padrões para que a reabilitação seja feita de forma organizada, baseada em evidências científicas e acompanhada por equipes multiprofissionais.
Recuperação começa cedo
O AVC pode deixar sequelas que comprometem movimentos, fala, deglutição, visão, memória e outras funções. Por isso, o atendimento não termina quando o paciente supera a fase aguda e deixa o hospital.
A reabilitação iniciada precocemente pode ajudar a recuperar a independência, melhorar a qualidade de vida e reduzir sequelas permanentes. Apesar disso, o acesso a serviços especializados ainda é desigual em diferentes partes do mundo.
Foi justamente para diminuir essas diferenças que a World Stroke Organization criou o novo programa de certificação.
As diretrizes internacionais reúnem 55 recomendações e abrangem desde a formação das equipes responsáveis pelo atendimento até a recuperação de movimentos, fala, deglutição, visão e cognição. Também incluem prevenção de complicações, preparação para a alta e acompanhamento do paciente depois da volta para casa.
Do atendimento ao retorno para casa
Para receber a certificação, os serviços precisam demonstrar que seguem padrões internacionais de qualidade e adotam práticas baseadas nas melhores evidências disponíveis.
Isso inclui trabalhar com equipes de diferentes especialidades, acompanhar indicadores de desempenho e manter protocolos atualizados para as várias etapas da recuperação.
O objetivo é que a reabilitação não se limite a tratar uma sequela isoladamente, mas considere as diferentes necessidades que podem surgir depois de um AVC e acompanhe o paciente também durante a retomada da vida cotidiana.
A World Stroke Organization já mantém um programa internacional de certificação de centros especializados no atendimento ao AVC na fase aguda. Em 2025, havia 137 centros certificados em 18 países. O programa específico para reabilitação representa uma expansão desses padrões de qualidade para outra etapa fundamental do cuidado.
SUS na dianteira
A escolha dos dois centros de Ribeirão Preto para inaugurar a certificação coloca unidades públicas brasileiras na dianteira de uma iniciativa que deverá chegar a outros países.
Os dois serviços atendem pacientes pelo SUS e trabalham com equipes multiprofissionais dedicadas à recuperação das capacidades afetadas pelo AVC.
Para o neurologista Octávio Marques Pontes Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, o reconhecimento mostra que é possível oferecer reabilitação de alta qualidade dentro do sistema público brasileiro. Mais do que um selo, afirma, a certificação exige acompanhamento permanente de indicadores e atualização contínua da assistência.
Com o novo programa, os padrões internacionais usados para melhorar o atendimento ao AVC passam a alcançar também uma etapa decisiva para milhares de sobreviventes: recuperar funções, autonomia e qualidade de vida depois de deixar o hospital.

